Doença crônica ainda é confundida com obesidade e carece de protocolos clínicos específicos, alertam especialistas
POR PAULO NOVAIS/ASCOM (novais.jornalismo@gmail.com)
Dor nas pernas, sensação constante de peso, inchaço que não melhora com dieta e facilidade para formar hematomas. Esses sintomas fazem parte da rotina de muitas mulheres com Lipedema, uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura principalmente nos membros inferiores. Apesar de reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição ainda é pouco diagnosticada no Brasil.
Dados do Ministério da Saúde indicam que, até novembro de 2025, o SUS registrou 931 atendimentos ambulatoriais e 757 hospitalares relacionados a Lipedema e Linfedema. O órgão, no entanto, não detalha quantos desses números correspondem exclusivamente ao Lipedema.
Especialistas afirmam que a realidade pode ser maior do que os registros oficiais apontam.

Segundo a Fisioterapeuta Especialista em Lipedema, Dra. Mariana Milazzotto, o principal entrave é a falta de reconhecimento clínico.
“O Lipedema ainda é frequentemente confundido com obesidade. A paciente emagrece, mas a desproporção nas pernas permanece. Como não existe um exame laboratorial específico, o diagnóstico é essencialmente clínico, o que exige preparo do profissional”, explica.
Por que o diagnóstico demora?
O Lipedema tem origem predominantemente genética e está associado a alterações hormonais. Costuma surgir ou piorar em fases como puberdade, gestação e menopausa.
A gordura característica da doença é inflamada e dolorosa ao toque, diferente da gordura comum. Também pode causar nódulos sob a pele, edema persistente e limitação de mobilidade.
Mesmo assim, muitas mulheres relatam anos de peregrinação por consultórios até receberem o diagnóstico correto.
“É comum que escutem que precisam apenas perder peso. Isso gera frustração, culpa e atraso no início do tratamento adequado”, afirma Dra. Mariana.
Estudos científicos recentes reforçam que o Lipedema é uma condição crônica e sem cura definitiva. As terapias disponíveis têm como foco o controle de sintomas e a melhora da qualidade de vida.
Tratamento existe, mas acesso é limitado
O Ministério da Saúde informa que o cuidado ao Lipedema está previsto na Política Nacional de Atenção Especializada em Saúde desde 2023. O atendimento deve ocorrer de forma integrada entre a Atenção Primária, responsável pela suspeita diagnóstica, e a Atenção Especializada, onde são oferecidas terapias.
Entre as opções disponíveis no SUS estão acompanhamento multiprofissional, fisioterapia, drenagem linfática manual, terapia compressiva, exercícios físicos orientados e controle do peso. Em casos específicos, podem ser indicados procedimentos cirúrgicos, como Dermolipectomia e Lipoaspiração.
Na prática, porém, especialistas relatam que o acesso é restrito.
“Os procedimentos existem, mas nem sempre são realizados com indicação específica para Lipedema. Muitas pacientes só conseguem atendimento quando o quadro é enquadrado como outra condição”, pontua Dra. Mariana.
Na rede privada, o cenário também apresenta desafios. Planos de saúde não costumam cobrir medicamentos voltados ao tratamento da obesidade quando associados ao Lipedema, nem cirurgias específicas para a doença.
Cirurgia não é solução definitiva
A lipoaspiração pode ser indicada em estágios avançados, mas não representa cura. Estudos apontam que, apesar de ajudar na redução do volume e da dor, o procedimento envolve riscos como Sangramento, Infecção e Trombose.
Já a Cirurgia Bariátrica, embora promova perda de peso, não costuma resolver os sintomas centrais do Lipedema.
“É importante deixar claro que o tratamento é individualizado. A base é conservadora: mudança de estilo de vida, fortalecimento muscular, controle inflamatório e acompanhamento especializado. A cirurgia é uma ferramenta, não a única solução”, reforça a especialista.
Informação como ferramenta de cuidado
Para a Dra. Mariana, ampliar a conscientização é fundamental para reduzir o sofrimento das pacientes.
“Quanto antes o Lipedema é identificado, maiores são as chances de controlar a progressão e preservar a qualidade de vida. O problema é que muitas mulheres só descobrem a doença quando já estão em estágios avançados.”
Especialistas defendem a criação de protocolos clínicos padronizados, capacitação profissional e ampliação da linha de cuidado no SUS e na saúde suplementar.
Enquanto isso, mulheres seguem enfrentando não apenas os sintomas físicos da doença, mas também a dificuldade de serem ouvidas e compreendidas.
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