O Evangelho não é palanque

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ANTÔNIO LUIZ DA SILVA

O que se assiste hoje é um escândalo: púlpitos virando palanques, orações transformadas em propaganda eleitoral, líderes religiosos moldando a Bíblia ao sabor de interesses políticos. A fé, que deveria ser refúgio e espiritualidade, está sendo sequestrada como ferramenta de poder.
Não é novidade. Desde os anos 1990, candidatos descobriram o potencial das Igrejas (Instituições) como máquinas de mobilização. O resultado é uma indústria milionária de influência, sustentada por fiéis que, muitas vezes, são levados a confundir devoção com militância. É a perversão da fé em moeda eleitoral.
Essa prática não tem partido nem ideologia, antes, é um vício generalizado. Mas é também uma afronta direta ao Evangelho. “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Marcos 12:17), ensinou Jesus. Misturar religião e política é corrosivo, insidioso, e abre caminho para abusos de poder. É a fé usada como escada para cargos.
O cristianismo chama seus seguidores – todos eles, independentemente da denominação que professam – a serem “sal da terra e luz do mundo” (Mateus 5:13-14). Isso se faz pelo testemunho, pelo serviço, pela prática da justiça e da misericórdia – não pela disputa eleitoral. “O reino de Deus não é deste mundo” (João 18:36). Reduzir o Evangelho a estratégia de campanha é uma distorção grave, uma traição espiritual. Ao defender a separação entre fé e poder político, Jesus, há mais de dois mil anos, foi condenado à morte em um julgamento manipulado pelos líderes religiosos de então – figuras que se confundem com muitas das de hoje. Naquele processo, a escolha foi trocar o Filho de Deus por um criminoso acusado de rebelião e assassinato, revelando como a instrumentalização da religião pode distorcer valores e servir a interesses escusos.
É hora, portanto, de dizer basta. A separação entre Igreja e Estado não é detalhe burocrático, é a garantia de que a fé seja vivida livremente e que a justiça seja administrada sem contaminação ideológica. Quando a religião se torna palanque, perde-se a essência da fé e ganha-se apenas mais um instrumento de poder.

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Jornal Digital EdiÇÃo Digital – 758